Desejo - de Hegel a Lacan

 

Ernesto Rister

 

Lacan observa há tempos que no centro de toda teoria e prática psicanalítica está o desejo. Este, conforme um desejo humano, e não natural, proveniente do inconsciente. Entre as influências da teoria de Freud, está o pensamento hegeliano, cuja fenomenologia do desejo é de grande importância para a compreensão do desejo freudiano. A diferença fundamental entre ambos está no inconsciente.

O percurso da fenomenologia hegeliana é o percurso da consciência para a autoconsciência. A primeira, entendemos como uma consciência do mundo exterior extremamente sensualista, onde o homem é um ser sensível, puramente contemplativo, que capta as sensações ingenuamente. Da consciência, o homem passaria à autoconsciência, onde se torna consciente de si mesmo, sendo então o “outro” considerado como um “para-si”.

Na consciência, o desejo é natural ou sensual, como o desejo de comer, por exemplo. Sendo assim, toda ação surgida do desejo é uma negatriz, pois destrói ou transforma o objeto para satisfazer o desejo. Da realidade objetiva surge então a realidade subjetiva, originada da interiorização ou assimilação do objeto. Ao assimilar ou interiorizar o objeto, o Eu passa a existir em função do objeto desejado e negado. Enquanto o objeto de desejo for natural, o Eu também será natural, ou seja, animal. Para que este desejo seja constituído como humano, deve se orientar a partir do desejo de outro, sendo então marcada a passagem para a autoconsciência.

Nesta etapa, a ação negatriz do desejo não desaparece. Será caracterizada pelo reconhecimento. O que o Desejo procura é negar o Desejo do outro, para ser reconhecido como próprio. Ocorre que o outro também procura isto, caracterizando assim um embate onde se arrisca a vida para o reconhecimento do Desejo como próprio. Porém, para o Desejo ser reconhecido, o outro deve estar vivo. Caracteriza-se assim a dialética do senhor e do escravo: Dois homens lutam entre si. Um deles aceita arriscar sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre. O outro, que não ousa arriscar a vida, é vencido. O vencedor não mata o prisioneiro, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. O senhor obriga o escravo, ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. O senhor não cultiva seu jardim, não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. O senhor não conhece mais o mundo material, uma vez que usa um escravo entre ele e o mundo. O senhor, porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo, é livre, ao passo que este último se vê privado dos frutos de seu trabalho, numa situação de submissão absoluta. Entretanto, essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor possui uma contradição: o senhor só o é em função da existência do escravo, que condiciona a sua própria existência. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. Nesse sentido, ele é uma espécie de escravo de seu escravo. De fato, o escravo, que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu) vai encontrar uma nova forma de liberdade. Colocado numa situação infeliz, aprende a se afastar de todos os problemas exteriores, a libertar-se de tudo o que o oprime, desenvolvendo uma consciência pessoal. Mas, sobretudo, o escravo incessantemente ocupado com o trabalho, aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. Por uma conversão dialética, o trabalho servil devolve-lhe a liberdade.

Para Freud, o Desejo é marcado pela falta de um objeto perdido no passado. Sendo assim, estruturado através da linguagem humana, o Eu do Desejo procura, de objeto em objeto, satisfazer-se alucinatoriamente na satisfação com esse fantasma do objeto real (natural). O desconhecimento desse objeto perdido é o que nos move nas relações de contigüidade e similaridade entre vários objetos de desejo. Ao se satisfazer com um objeto, logo seguirá uma insatisfação que moverá o indivíduo a procurar um novo objeto, em uma cadeia infinita de significantes. É essa característica do desejo que o define como da ordem do simbólico, sendo satisfeito no plano do imaginário. O objeto real é desnaturalizado e passa a se tornar signo, passando em seguida para o plano da linguagem, fazendo então com que a palavra seja mais importante que o objeto.

Então, quando afirmamos que o desejo é inconsciente, nota-se que é como se o indivíduo possuísse dois sujeitos: O sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. O primeiro é o social, o do discurso manifesto, mas desconhecedor do sujeito da enunciação e, por conseguinte, do conteúdo da mensagem. O segundo é o inusitado em relação ao sujeito do enunciado. É inconsciente e recalcado.

Sendo assim, o grande legado deixado pela psicanálise é o de tentar trazer à tona o sujeito da enunciação a partir do sujeito do enunciado. As técnicas e teorias criadas por Freud e elucidadas por Lacan podem fazer com que se evite a angústia e uma série de patologias nesse indivíduo a partir desse princípio.