Neurociência Integrando a Psiquiatria e a Psicanálise

Sonhos: Neurociências versus Psicanálise

 



Dr. Pedro Carlos Primo

Psiquiatra, psicanalista e mestre em Saúde
Mental,
Ciências Humanas e Sociais pela
Universidade de León, Espanha.



 

 

 

 

C

oncepções difíceis de serem amalgamadas, as defendidas pela psicanálise e as defendidas pelas neurociências, no que diz respeito aos sonhos.  Em sendo caso, resta-nos confrontar as duas concepções.

 

Para a Psicanálise os sonhos são construtos psíquicos e é uma das pedras angulares de sua teoria, pois estão baseados na história do indivíduo, idéia  esta que a Psicanálise tanto presa. Segundo a psicanálise a função principal do sonho é guardar o sono  do sonhador, ao permitir a realização alucinatória dos desejos inconscientes, e desta forma, criar condições psíquicas para que o indivíduo continue dormindo. Os sonhos se expressam através de cenários pictóricos, numa linguagem arcaica, primitiva e carregada de simbolismo. Quando interpretados corretamente adquirem sentido para o sonhador. Este ponto é interessante porque no curso da história da humanidade, dependendo da cultura, os sonhos tem sido interpretado de modo diferente pelas diversas culturas, muitas vezes confundindo uso com função.

Ao longo de sua história, a humanidade vem tentando  entender o significado dos sonhos. Dele cuidaram filósofos, místicos e cientistas, chegando eles às mais diferentes interpretações. Diversas culturas antigas e mesmo muitas atuais interpretam os sonhos como inspirações, sinais divinos, visões proféticas, fantasias sexuais, realidade alternativa, e diversas outras crenças, dada a sua natureza intrigante e enigmática, muitas vezes perturbadora. Esta é uma questão relacionada ao uso, ou seja, dizer que os sonhos servem para predizer o futuro, ou diagnosticar doenças, como se pensava na Antigüidade, ou mesmo como defendem os psicanalistas hoje, ou como afirmava Freud, que os sonhos são uma via régia para o inconsciente e um instrumento para se compreender a personalidade dos pacientes, é também uma questão de uso, mas não de função. Agora quando se diz que os sonhos protegem o sono como defendia Freud, ou quando se fala de algumas teorias que se seguem nesse texto, levantadas por alguns neurocientistas, podemos estar falando de função.

Em 1900, em seu livro “A interpretação dos Sonhos”, Sigmund Freud defendia a idéia de que os sonhos refletiam a experiência inconsciente e era um guardião do sono. Ele teorizou que o pensamento durante o sono tende a ser primitivo ou regressivo e que os efeitos da repressão são reduzidos. Para ele, os desejos reprimidos são, particularmente, aqueles associados ao sexo e à hostilidade, os quais eram liberados nos sonhos quando a consciência era diminuída.

Entretanto, naquela época, a fisiologia do sono e sonhos era desconhecida, restando a Freud apenas a sua interpretação psicanalítica dos sonhos.

Somente na década dos 50, com a descoberta de que os movimentos rápidos dos olhos (o chamado sono REM, ou  Rapid Eyes Movement), eram freqüentemente um indicativo de que o indivíduo estava sonhando, uma nova era de pesquisa sobre os sonhos emerge, e alguns elementos da psicanálise passaram a ser questionados, como de validade duvidosa, pelos neurocientistas.  A partir dos estudos da neurobiologia do sono a neurociência vem se ocupando dos sonhos. Para ela o sonho é o  resultado da ativação de certas estruturas cerebrais, como o tronco cerebral e não guarda relação com a história individual. Não expressa uma realização inconsciente  de desejo, e é entendido como parte do ciclo do sono, determinado biologicamente.

“De natureza muitas vezes bizarra, irreal e confusa, os sonhos são especulados por alguns estudiosos do sono e sonhos como sendo um meio pelo qual o cérebro se livra de informações desnecessárias ou erradas durante o período em que o indivíduo está acordado – um processo de “desaprendizagem” ou aprendizagem reversa, proposta por Francis Crick e Graeme Mitchison, em 1983. Estes pesquisadores postularam que o neocórtex, uma complexa rede de associação neural, poderia se tornar carregado por grandes quantidades de informações recebidas. O neocórtex poderia desenvolver, então, pensamentos falsos ou “parasíticos”, pensamentos estes que comprometeriam o armazenamento verdadeiro e ordenado da memória” (Silvia Helena).

 

 

 

“Isto explicaria porque as crianças, cujo ritmo de aprendizagem é intenso, apresentam mais sono REM do que os adultos. Elas necessitariam, segundo esta idéia, esquecer as diversas associações erradas ou sem sentido que se formam durante a sua aprendizagem quando estão acordadas, favorecendo, desta forma, o armazenamento das associações ou informações que são verdadeiramente importantes” (Silvia Helena).

“Em linha semelhante de pensamento, outros estudiosos teorizaram que os sonhos consistem de associações e memórias eliciadas da parte frontal do cérebro, em resposta a sinais randômicos do tronco encefálico. Estes autores sugeriram que os sonhos são o melhor “ajuste” que o cérebro frontal poderia fornecer a este bombardeamento randômico do tronco cerebral. Nesta proposição, os neurônios da ponte, via tálamo, ativariam várias áreas do córtex cerebral eliciando imagens bem conhecidas ou mesmo emoções, e o córtex então, tentaria sintetizar as imagens disparadas. O sonho “sintetizado” pode ser completamente bizarro e mesmo sem sentido porque ele está sendo desencadeado por uma atividade semi-randômica da ponte” (Silvia Helena).

“William Dement nos chama a atenção para o fato de que cada um de nós somos “loucos”, ao sonhar, pois, manifestamos as mais bizarras situações. Outros pesquisadores predizem que falhas na habilidade em processar o sono REM, podem causar fantasias, alucinação e obsessão. Outros ainda, afirmam que a falta de sonhos (de sono REM) induz psicoses alucinatórias e outros distúrbios mentais”(Silvia Helena).

Em Resumo

 

As teorias mais atuais apresentadas pelos neurocientistas sobre sonhos são:

Teoria restaurativa

 
 O sono ajuda nosso corpo a salvar e restaurar energia por diminuir nosso metabolismo, o que leva a uma conservação de energia. Ele  também ajuda a
 recompor nossos depósitos de neurotransmissores, uma vez que a maioria dos neurônios diminui sua atividade durante o sono.
 As ondas lentas do sono têm efeitos restaurativos. Elas fornecem um período de repouso para o cérebro. Sem o repouso, nosso cérebro não funciona apropriadamente.
 

 

Teoria da aprendizagem

 

 Durante o sono, nós podemos armazenar e reorganizar informações. Os neurônios que estão envolvidos na aprendizagem e memória  repousam durante o sono, principalmente durante o sono REM (Rapid Eye Moviment ou Movimento Rápido dos Olhos, estágio em que estamos sonhando). Talvez esta seja a razão pela qual nos sentimos mentalmente ativos e descansados quando temos uma boa noite de sono, comparado ao que sentimos após ficar longas horas da noite acordados.
 Muitos estudos sustentam que o sono REM exibe um papel importante na retenção e consolidação da memória. Um deles mostra que
 um grupo de pessoas que foi privado do sono REM durante a noite apresentou maior dificuldade de retenção de material de estudo,  comparado a outro grupo que teve um sono sem interrupções.
 

 Além disso, outras teorias da aprendizagem dizem que o sono, particularmente o sono REM é designado para remover informações inúteis da memória. Esta teoria sugere que é de igual importância remover informações não desejadas e manter armazenados dados  importantes. Nossa memória tem que trabalhar de duas formas, uma para armazenar informações importantes e outra para remover  informações desnecessárias. Um importante neurocientista de sono e sonhos, já afirmou que: “nós sonhamos para esquecer”. É sugerido
 que os sonhos podem refletir um mecanismo de processamento da memória herdado de espécies inferiores, no qual a informação importante para a sobrevivência é necessariamente sensorial, e seria reprocessada durante o sono REM.  De acordo com nossos ancestrais mamíferos, os sonhos em humanos são sensoriais, principalmente visuais.
 

 

Teoria do desenvolvimento

 

 Esta teoria diz que o sono exibe um papel no desenvolvimento do cérebro. O sono REM é um importante componente do sono para fetos ainda no útero e para as crianças. Acredita-se que o sono REM ativa áreas visuais, motoras e sensoriais no cérebro e isto aumenta a habilidade dos neurônios de funcionar apropriadamente e fazer as conexões corretas.

“Com base em tais achados e teorias, podemos pensar que sonhos são mecanismos de defesa e adaptação, e a “loucura” manifesta durante este estado silencioso e inconsciente, parece ser necessária para que nos mantenhamos “são” durante o nosso agitado estado de consciência” (Silvia Helena).

A questão central para a psicanálise é como os sonhos, apesar desses vários questionamentos dos neurocientistas podem ainda ser mantido como um paradigma para a sessão de análise, ou ainda, serem utilizado como modelo para a compreensão das doenças mentais, na atualidade, como afirmou (Freud, 1915-1916). “O sentido dos sonhos como forma de preparação para o estudo das neuroses. Essa inversão se justifica, de vez que o estudo dos sonhos não apenas é a melhor preparação para o estudo das neuroses, como também porque os sonhos, por si mesmos, são um sintoma neurótico que nos oferece, ademais, a inestimável vantagem de ocorrer em todas as pessoas sadias. Na verdade, supondo-se que todos os seres humanos fossem normais contanto que sonhassem, nós, partindo dos seus sonhos, poderíamos chegar a quase todas as descobertas a que nos levou a investigação das neuroses”. Freud afirma ainda:  “o sonho é uma loucura de curta duração, enquanto a loucura é um sonho de longa duração” (Freud, 1938-1940). “uma psicose controlada”. “Um produto patológico, o primeiro membro da classe que inclui os sintomas histéricos, as obsessões e os delírios, sendo, contudo diferenciado dos outros por sua transitoriedade e por sua ocorrência sob condições que fazem parte da vida normal” (Freud, 1940 1938, 1932-1936).

 

Sabe-se que os sonhos possuem uma espécie de moldura que é o conteúdo manifesto, resultado da elaboração onírica que transforma os pensamentos oníricos no sonho manifesto, ou seja, nessa moldura. A elaboração onírica ao realizar essa transformação faz uso de figuras de linguagem, de simbolismo e de mecanismos como o de condensação e de deslocamento, num cenário pictográfico (imagens predominantemente visuais), não somente porque seja um tipo de linguagem arcaica, primitiva, apropriada aos sonhos e oriunda do processo primário, sede latente da vida psíquica primitiva, pulsional e emotiva, mas também porque os conteúdos latentes dos sonhos, ou seja, os seus pensamentos oníricos carregados de motivações inconscientes e de desejos somente podem se expressar na consciência se disfarçando, isto é, driblando a censura que o ego, mesmo em estado de sono a mantém ativa, evidentemente, em menor proporção do que a que existe na vigília.

A psicanálise vem se defrontando com certos impasses em suas teorias e também vem recebendo, na atualidade, ataques dos mais diversos setores, particularmente de psiquiatras e neurocientistas identificados com o modelo de pesquisa neurobiológica. Há alguns artigos recentes, de psicanalistas, enfocando a questão dos sonhos e as neurociências.Dois deles (Soussumi, 2001) e (Doin, 2001) foram apresentados no Congresso Brasileiro de Psicanálise, realizado, em são Paulo, em 2001. Eles trazem o debate que está atualmente sendo travado, entre neurocientistas de linha cognitivista e neuropsicanalistas identificados com o modelo psicanalítico, no que diz respeito a sonhos. Para os cognitivistas, principalmente para J. Allan Hobson, na sua proposta radical o sonho não tem significado psíquico como defende os psicanalistas, sendo, apenas, um epifenômeno do sono REM, e decorria da ativação de certas estruturas cerebrais, como por exemplo: o tronco cerebral que ativado por determinados neurotransmissores, tipo a acetilcolina geraria o sonho cujo substrato neurobiológico é o sono REM. Ele ressalta ainda nessa hipótese (Soussumi apud Hobson) “o papel do sistema límbico na seleção e na elaboração das tramas dos sonhos e que os psicanalistas não aceitam essas hipóteses neurobiológicas a respeito de sonhos porque isso significaria  ter que reformular toda a psicanálise, já que a teoria dos sonhos é tão fundamental para a mesma” (o que é verdadeiro).

Noutro artigo, Mancia (2001) pelo lado dos neuropsicanalistas contesta as posições radicais defendidas por Hobson e argumenta, juntamente, com   Mark Solm que, novas pesquisas sobre a neurobiologia dos sonhos mostram que os mesmos ocorrem também (em torno de 5 a 30 por cento) durante o sono não-REM e que, provavelmente, há muitos outros mecanismos envolvidos nos sonhos, além do sono REM.

 Apesar de parecerem existir diferenças fundamentais entre um tipo de sonho e outro (o que ocorre no sono REM e no NREM) e que a neurofisiologia do sono REM seja o suporte principal à psicologia do sonho, “há atividade mental do tipo sonho em todas as fases do sono, do início ao despertar” (Mancia, 2001). “No entanto, há diferenças qualitativas entre a atividade mental das várias fases do sono. Por exemplo, a estruturação espacial dos sonhos, o nível de participação pessoal do sonhador, o número de palavras utilizadas para contar o sonho, e certas características do sonho em si, tais como o aspecto fantástico, são determinadas como sendo maiores na fase REM do que na não-REM. Além do mais, o sono REM parece propiciar as melhores condições de ativação cortical para a recuperação da memória, suficiente para permitir relatos de certa extensão” (Mancia apud Antrobus, 1983).

Segundo ainda (Mancia, 2001) “a diferença fundamental entre a visão psicanalítica e a neurocientífica dos sonhos é que a psicanálise vê o sonho como expressão de uma teologia da mente (Mancia, 1988), no sentido de que ela refere-se às figuras ou representações que assumiram uma dimensão sagrada dentro de nós, os sonhadores, porque estão relacionadas com nossos objetos internos. A diferença, portanto, encontra-se na história afetiva do sujeito, que a psicanálise, diversamente das neurociências, considera central para o significado do sonho”.